quinta-feira, 28 de abril de 2011
A vida é muito curta
Houve momentos que de tanto pensar, fiquei desorientada. Havia uma ânsia em mim de entender a vida que não me deixava em paz.
- Mãe, por que que vão demolir essa casa tão bonita?
E ela dizia:
- Porque vão construir um prédio moderno.
- Moderno? Mas mãe, o moderno vai ser mais bonito que essa casa? Mãe, olha lá, aquele homem com a marreta na mão, destruindo aquela estátua! Mãe, faz alguma coisa!
Coitada da minha mãe. Tinha trabalhado o dia todo e só queria chegar em casa, tomar um banho quente, fazer uma sopinha e ir dormir, depois de banhar, vestir e alimentar todos nós.
- Deixa pra lá minha filha, a vida é assim mesmo.
Que horror. Não diga nunca isso para nenhuma criança, a vida é assim mesmo. Diga a verdade:
- Meu filho (ou minha filha), infelizmente há pessoas que destroem as coisas, enquanto outras tem prazer em construir, plantar, fazer bonito, caprichar, cuidar. Tem gente que quer descer a marreta.
A culpa é da ignorância das pessoas, e não da Vida.
Mas a Vida, por sua vez, não facilitava em nada a minha vida. Tragava-me. A vida devorava-me viva, sem dó nem piedade, comendo as minhas horas no ir e vir da escola que, conforme eu crescia, ia ficando cada vez mais longe da minha casa.
Eu fui me arregimentando como pude para encará-la.
Manhãs cinzentas molhadas da garoa gelada de São Paulo. Manhãs agitadas nas novíssimas estações do metrô paulistano - pesadelo do "Admirável Mundo Novo" de Aldous Huxley.
O livro, escrito na década de trinta, pouco mais de vinte anos antes de eu nascer, me assombrou por meses. Finalmente, após a inauguração da "maravilhosa" estação Bresser, vi que era perfeitamente possível que os pesadelos se tornassem realidade. Os sonhos não, mas os pesadelos, ah, certamente esses acontecem!
Livro admirável, horrenda realidade.
Por um bom tempo, vivi triste. Tinha dó de tudo, de todos. Chorava pela miséria, pela sujeira, pela violência e pela feiura do mundo.
Até que descobri que, por mais que eu buscasse, jamais saciaria a sede que havia em mim. Entendi que não era uma fase, que não era curiosidade, que não era teimosia, não era falta de coragem. Era esta ânsia uma considerável porção da minha alma. Criaram-me para pensar. Fizeram-me crer que o pensamento possui em si mesmo uma espécie de poder mágico de criação. Instruíram-me para apreciar o belo, a proporção, a delicadeza, as virtudes. Nutriram-me para almejar. Culpa total dos meus pais! (Bendita psicanálise).
Me lembrei dessas coisas porque hoje conversei com um colega do mestrado que desenvolve uma pesquisa muitíssimo interessante sobre a arquitetura das estações do metrô, e embutido nisso está o fluxo e o caminhar das pessoas, seus ritmos, seus medos, suas defesas, suas necessidades.
Forças que se chocam, a humana e a tectônica. Será que deveria ser assim?
A arquitetura não deveria, principalmente e fundamentalmente, abrigar?
A arquitetura imposta às massas humanas, essas sem direito à escolha desse - por que não dizer - produto, que a arquitetura também é.
Arquitetura do não-lugar para joãos-ninguéns.
Fui me formando naquele empurra-empurra. Ia e vinha no metrô, ou no ônibus, da casa para o trabalho, do trabalho para a faculdade, da faculdade pra casa. Aperta, amassa, sofre, espreme. Como milhões de iguais. Aqui na minha terra e no mundo.
Lia em pé. Com o livro na mão, como um escudo, sobrava-me isolamento na exata medida em que me faltava espaço. Minha mãe dizia:
- Não reclame. A dona Praxédis (senhora muito humilde que trabalhava em casa) vem lá de Itaquera de trem. Se os óculos dela penderem da cara, a pobre vem com eles assim mesmo, na impossibilidade total e absoluta de usar a mão para arrumá-lo. Sabe por quê? Porque ela vem pendurada no varal de gente que tem dentro do trem. Você, ao menos, é livre de óculos por causa dos seus vinte anos. Aproveite enquanto pode.
Oh, Deus, que vida! Ainda tinha coisa pior, como a vida da dona Praxédis? O dia em que vi o trem que levava a dona Praxédis para casa dela, chorei a noite toda.
Pesava-me a falta de significado daquele trem que trazia pessoas como gado. A tristeza de ver que as pessoas eram, em muitas horas do dia, e em muitos espaços da cidade, uma carga indesejável.
Peso a ser empurrado sem necessidade de gentilezas. Fardos da cidade. Castigo social merecido. Maltrato puro.
Senti a solidão urbana como um espinho na carne da "maravilha de se morar numa metrópole". Credo. Isso é maravilha? Me parecia um castigo. Eu sonhava com o campo, com a praia, com o fundo do mar, com outro planeta, com qualquer coisa, menos com a cidade grande.
Mas logo vi que os livros eram mais do que histórias interessantes, eram alimento para uma alma seca e inquieta, que sofria de um faniquito crônico da falta de explicação de tudo. Falta de nexo, falta de senso, falta de humor, falta de sabor, falta de cor, falta de amor. Falta, falta, falta. Dor.
Bom, meu pai dizia que a vida era dura pra quem era mole. Era uma vergonha eu não me acostumar com a rudeza da cidade. Vergonha familiar. Vergonha para uma linhagem de gerações e gerações de paulistanos trabalhadores e raçudos. Isso era tão grave como uma vergonha nacional.
Naquela época, não tinha celular. Às vezes, pra fugir do trânsito, para fazer uma graça comigo mesma, para me livrar do tédio de fazer tudo sempre igual, eu inventava de mudar de caminho. Sem mais nem menos, sem a menor prudência ou noção do que estava fazendo, eu dizia pra mim mesma, que se dane, hoje vou por aqui. E via, sim, outros rostos, outras cores, outra paisagem. Me meti em muitas aflições por causa desses arrobos.
Meu pai sempre muito silencioso, chegava em casa e me pegava confessando aqueles horrores para minha mãe, na mesa da cozinha. Me olhava com raiva, quase que fazendo uma careta e dizia:
- Como é que você foi se perder nesse lugar? Tenha santa paciência, você ainda não sabe voltar de tal bairro?
Calava-me, petrificada e estúpida. Calava-me porque sou da geração que não ofende nem o pai, nem a mãe. Porque família é sagrada. E toda vez que ouvia essa frase me lembrava de outra, que me parecia muito mais adequada: "Família só a Sagrada e assim mesmo na parede pregada!"
Porém, se eu falasse a verdade naquela hora, meu pai me matava. Ensaiava um murmúrio mais ou menos assim, choroso:
- Pai, sabe, eu queria ver uma paisagem com umas coisas novas...Ele, faltando pouco pra me esganar, me respondia:
- O quê? Que coisa nova? Um assaltante novo?
- Credo, pai. (Deixa-me ir e vir, pai, livra-me por favor, desse fardo de fazer tudo igual todos os dias).
Pensava tudo isso e não abria a boca. Chegou um tempo que eu me cansei de tal maneira que, ou pedia demissão e mandava aquele belo emprego às favas - o que não podia ser, porque eu precisava me formar- ou me arrumava uma saída para aquele suplício do ir e vir no transporte público.
Fácil. Contratei um motorista de táxi pra me levar cedo ao trabalho e me levar do trabalho para casa. Gastava uma fortuna de táxi, quase metade do meu salário. Que se dane, não suporto mais, pensava.
A vida é muito curta para se viver, assim, tão mal.
Quieta, no silêncio do táxi - de antemão combinava com o motorista que ele não me importunasse com conversas frívolas do cotidiano, do tempo, do clima, do trânsito, da política. Malditos políticos. Se prestassem pra alguma coisa, a cidade não ficaria nesse caos, as pessoas não viveriam amontoadas.
Eu precisava do silêncio para pensar em um problema muito sério, um projeto importantíssimo que estava sob minha inteira responsabilidade. O motorista respeitava o trato.
O que ele jamais soube é que o tal projeto importantíssimo era:
"A Rosinha precisa sobreviver".
Sair viva daquele inferno de vida na metrópole. Pagar caro para ter silêncio e espaço. Quanto a isso, nada mudou (não sejamos ingênuos). As pessoas se matam de trabalhar, para pagar por algum silêncio e um pouco de espaço.
Brave New World. Mas o nosso mundo real é muito pior.
Um dia, de repente, consolei-me com uma imagem mental muito interessante. Veio-me à mente que Minerva nasceu da cabeça de Júpiter completamente armada. Que beleza. Entendi que nasci da cabeça do meu pai. Já meu irmão do meio, por sua vez, nasceu do ventre masculino do meu pai, do seu apetite voraz, do seu vigor quase selvagem. Minha irmã caçula, doce e meiga, nasceu-lhe do coração. Era fruto dos seus consertos e perdões.
Quando pensei isso, sosseguei. Minhas milhares de horas de análise tiveram finalmente uma serventia: descobri que o que eu via como fragilidade era, na verdade, força. Força da idéia, da vida, da ânsia de entender e viver uma vida única, minha. Força de sonhar um mundo melhor. Sonhar pra mim, sonhar para outros. Sonhar um mundo mais bonito, mais gentil, mais de verdade.
Força da vontade de desenhar algo que prestasse, com as minhas mãos finas de moça. Mãos que não tinham lá muita força física mas que seguravam o lápis com uma satisfação indescritível, e uma destreza vibrante de possibilidades.
E desenhava, desenhava.
- Pra que que essa menina gasta tanto papel, desenhando? alguém, às vezes, perguntava. Minha mãe me socorria a tempo, dizendo:
- Deixa ela, disso ainda vai sair alguma coisa séria.
E saiu mesmo. Devo à minha mãe a escolha da minha profissão. Se hoje sou arquiteta, devo à ela. Escapo da maioria das angústias escrevendo e desenhando. Alinhando, colorindo, olhando, montando, desmontando, virando e desvirando, rabiscando, pintando. Olhando de novo. Namorando. Tecendo uma urdidura de vida e arquitetura.
O pesadelo virou sonho, que virou realidade.
sexta-feira, 6 de agosto de 2010
Convivência
Tem dias que não dá vontade de sair da cama. Depois que a gente, enfim, levanta, com o corpo pesando uma tonelada e o ânimo lá no subsolo, vai se espremendo por dentro para achar em algum lugar alguma forcinha para ir fazer as coisas. As coisas, sempre as coisas. As tarefas, as contas, os assuntinhos. Levar aquele sapato no sapateiro. Ir ao banco. Que preguiça de enfrentar o trânsito! Não há lugar para estacionar. Vamos lá pagar uma exorbitância por meia hora no estacionamento. A última vez que fiz isso paguei $2,00 por meia hora. Assalto à mão armada. Fiquei quinze minutos e paguei a mesma coisa. Mas, na hora que mais se precisa, o estacionamento está lotado. Vamos para aquelas 400 voltas no quarteirão para achar uma vaga. Depois os lojistas daqui da cidade reclamam que não se prestigia o comércio local. Fácil falar, né? Que tal criar facilidades para o consumidor? Oferecer o estacionamento graciosamente, por exemplo? Desse jeito é mais fácil ir até o shopping da cidade vizinha, acha-se de tudo, paga-se com cartão, em vezes. Lá pode-se comer de tudo até desde fast food até comida japonesa. E tem estacionamento. Não vai dar tempo... Acho que é a frase que eu mais falo para mim mesma durante o dia! Ainda tenho que levar aquela saia preta fazer a barra na costureira. Como a costureira também está muito atarefada - Deus sabe se ela também se sente pesando uma tonelada quando acorda pela manhã! - e eu sei que vou chegar lá, vou pedir o serviço, ela vai fazer aquele muxoxo de cansaço e vai me dizer assim "você tem muita pressa?" Eu, pressa? Nem sei o que responder.
Andei pensando sobre essas coisas. A gente só procura o outro porque não tem o que ele tem. Falta-nos habilidade. Ou tempo. Ou paciência. Ou coragem. Então, eu procuro a costureira porque eu não sei fazer o que ela sabe. Eu não tenho máquina de costura, ela tem. Hoje me perguntaram porque que os arquitetos e os engenheiros trabalham juntos. Respondi prontamente: "porque os arquitetos tem preguiça ou não sabem calcular e os engenheiros não sabem ou tem preguiça de desenhar!" Ora, é só por isso mesmo! União de incapacidades! Me diga se os outros relacionamentos humanos não são assim? Já viu um casal igualzinho? Raríssimo. Sempre que um é arrumado, o outro é desengonçado. Um é pontual, o outro é atrasado. Um é racional, o outro viaja na maionese. Um é gastão e o outro pão-duro. Bem pode ser que o pão-duro só tenha se transformado em pão-duro porque o outro é gastão. Ou ainda, o gastão acomodou-se em ser assim gastão porque, no fundo, pensa que o pão-duro tem muito dinheiro guardado escondido. Infelizmente, o mesmo vale não só para humor mas, às vezes, para o caráter. Conheço um casal que me faz pensar porque estão juntos. Ele é um homem amável, corpulento, corado. Sempre alegre e gentil. Me parece sincero, espontâneo. Ela é magra e monótona. Arrumadinha, se acha elegante na sua secura. Sempre a mesma expressão no rosto pálido, sempre o mesmo sorriso amarelo. Cordialidade forçada, a dissimulação em pessoa. Como é que pode? Será que eles se enxergam como são e assim mesmo, se gostam? Ou estão enganados? Se for assim, resta saber quanto tempo vai demorar para descobrirem a verdade. O que acontecerá depois, caso eles percebam a verdade? Será que permanecerão juntos? E quando tiverem um filho, o que será? Nascerá um híbrido, como no seriado "V", meio humano, meio réptil-alienígena.
Eu, deles, passo reto. Cumprimento - fazer o quê - com pena do rapaz. Estranha convivência.
Essa junção no desequilíbrio é o jeito que Deus encontrou de fazer a gente entender que não sabe tudo e não pode tudo. É ser pela metade mas na ânsia de ser inteiro. Daí, passamos a vida procurando o que falta. Mas nem em sonhos escapo de sentir a falta de algo! Quando acordo, estou fragmentada. Pra piorar, vem um passarinho pousar na minha janela. Contra o azul do céu, a pequena figura xereta me fita, com olhar de piedade. Mas ele vai embora tão rápido como veio, livre. Olhando a janela e o céu azul, me dá uma bruta inveja do passarinho. Preciso de asas, coisa que nunca terei. Resta-me o silêncio, a solidão e, com um pouco de sorte, a escrita.
quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010
Raios
Chove pra enjoar, neste fevereiro pré-carná. Estou ainda a arrumar a casa, tropeçando nas malas de viagem, das coisas dos filhos, filhas que entram e saem, filho que volta. Como é bom ter um filho que volta! Lembro-me da primeira vez que ouvi a história do filho pródigo, apaixonei-me instantaneamente. As coisas hoje em dia estão muito importantes, mais do que as pessoas. Mas das coisas tenho a dizer que por elas nutro algum apreço e algum prazer. Porém, elas me cansam, me enjoam, me aborrecem de tal maneira que quero jogá-las pela janela. Às vezes, jogo. Às vezes, não jogo. Suspiro e desvio o olhar, com desprezo. As coisas não me prendem por muito tempo, não exercem tanto poder sobre mim, não me podem escravizar. Já as pessoas, ai.
De tantas chuvas vieram uns raios, um deles me queimou a televisão, justo a do quarto. Olho agora para o buraco vazio em frente a cama. "Bem feito!" - uma vozinha cínica me grita no interior dos ouvidos - ''não é você que diz que não precisa da tv pra viver? então, agora aguenta!" Me recolho, humilhada até o último fio de cabelo, pensando no castigo merecido.
Mas o raio que queimou a tv, além de me tirar do conforto (e do tédio) que é distrair-me com a telinha, me causou um belo prejuízo. Ainda não sei se a tv se recupera. A pobre foi para o conserto e o velho japonês nada de ligar para dizer se a moribunda vai viver ou não.
Mas o silêncio do quarto contribui para que eu pense direito na vida, no começo de vida que este novo ano oferece. Penso no pouco que fiz e no muito que deixei de fazer. Ai, que dor me dá essa conclusão. Todo ano é a mesma coisa, fazer planos, para depois não chegar nem à metade! A vida é um despautério. Como se a gente controlasse alguma coisa! De que adianta fazer planos? Acaso alguém sabe se vai viver para executá-los? Restam-me, como sempre, os livros, acumulados em pilhas sobre o criado-mudo. A Nair, mulher piedosa que trabalha aqui em casa, me previne todos os dias dizendo: "qualquer dia essa pilha despenca sobre a senhora... e o que será?" Não dou bola e continuo a empilhar os livros na cabeceira. Tenho mania de ler, e de ler cinco coisas ao mesmo tempo. Coisa de louco, eu sei.
Meu marido, pensando em por fim aos meus tormentos, comprou-me, de surpresa, uma televisão de LCD. Instalou-a sozinho, com aquela habilidade cirúrgica que ele tem. Quando entrei no quarto, da tela preta novinha, puro ônix, emanava uma sedutora luz. E ele me sorriu, contente em querer me fazer feliz com o presente. A tv é a mesma coisa para mim, mas aquele sorriso encantador de garoto que ele tem sempre me toca, sempre me amolece, sempre me ilumina por dentro. Deixe que chova, fico com o teu sorriso.
quarta-feira, 6 de janeiro de 2010
Abra a mão e feche os olhos!
Vamos indo no trem dessa vida louca e esquisita para mais uma nova estação, uma nova chegada, um novo ano.
Essa expectativa do ano começando, das possibilidades que com ele virão, nos enche de um faniquitozinho por dentro, faniquito que tentamos disfarçar fazendo planejamentos.
Com o calendário numa mão e a caneta na outra, como se controlássemos o tempo, compenetrados. Os dias, as semanas e os meses, as estações do ano em nossas mãos. Que medo.
Faz algum tempo que me toquei do ''topete'' humano de querer controlar tudo. Nunca fui muito de fazer planos, aliás, levava bronca de tudo quanto era jeito, porque eu era (era?) assim, desorganizada.
Me encolhia de vergonha diante dos ''planejadores'', eficientes, experientes, competentes e implacáveis.
Olha como a minha vida é certinha e a sua é um horror... é o pensamento por trás daqueles olhos cheios de certeza - sobrolho erguido pela satisfação consigo mesmo - e vazios de compreensão ou compaixão diante dos pobres irresponsáveis bangunceiros, desprovidos de nascença do ''dom'' da organização.
Coitados (nós) atrapalhados, que não planejam nada nunca, e vivem numa bagunça, e vivem em sobressalto, e vivem espontaneamente.
Ao contrário do que parece, os planejadores não tem uma vida calma. Os planejadores não estão - apesar de se esforçarem tanto por demonstrar - por cima da carne seca das mazelas humanas. Eles - pasmem - vivem estressados.
Os planejadores passam os minutos da vida contanto, calculando, medindo e organizando cada fiapo de coisa ou pensamento que lhes cai nas mãos. Há aqueles que, depois de planejarem tudo na própria vida e não terem mais nada pra fazer, se voltam a planejar a vida alheia
Como se isso fosse um supremo ato de misericórida - deixe-me ajudar esses infelizes incapacitados aqui ao meu redor! A seguir, esticam os bracinhos duros e vigorosos mergulhando-os nalguma tarefa robótica, esboçando no rosto sem expressão um leve repuxar de lábios, que é o mais próximo que eles conseguem chegar de um sorriso.
Caricatura de sorriso que nasce, claro, do orgulho próprio. Ah, mas me dá uma vontade de rir... E eu rio - muito - interiormente. Me divirto com a petulância dessas criaturas esquisitas, que se acham o top de linha da raça humana.
Contudo, não podem prever o clima e nem qual será a velocidade dos dias que virão, nem a a quantidade de rugas que surgirão na nossa cara.
Sem eles, o mundo já teria sucumbido (eles acham). Ah, se pudessem, controlariam o Universo, começando da Nasa para a via Láctea, depois indo mais além e mais e mais até chegar no terceiro céu, onde dizem que Deus habita.
E chegando lá, haveriam de fazer perguntas e mais perguntas ao Criador, tomando satisfações do que Ele fez e porque fez, ou como eles gostam de dizer "como o SENHOR deixou isso acontecer?" Imagino a expressão na face de Deus. Huahauahuahuahua...
Mas rio agora, né... porque passei muito tempo tentando correr atrás de fazer todas as coisas perfeitamente, não só por ser perfeccionista - que tontice - mas para cumprir todas as exigências deles e agradar aqueles que querem ter tudo sob controle. E tem sempre um ou dois pelo menos ao redor da gente. Que praga!
É como uma invasão alienígena! Eles parecem gente da mesma raça mas não são - ou melhor, não acham que são. Se julgam superiores e quem não sabe identificá-los nem imagina que está prestes a ser dominado.
Para você que agora já está nervoso pensando em como se defender, aqui vão algumas dicas para identificá-los: eles gostam dos relógios.
Nem sempre usam um no pulso, mas sempre estão de olho em um.
Os mais antigos são fascinados por despertador.
Eles amam os cronômetros!
Eles gostam de calculadoras, planilhas excell e listas.
Eles gostam de por as coisas e as pessoas cada uma no seu lugar.
E gostam muitíssimo de delegar tarefas e mais tarefas e tarefas e espiar se estão sendo feitas. E fazem perguntas óbvias.
Eles não gostam de reconhecer os talentos e capacidades e dons alheios - especialmente a criatividade - porque nenhum dom é superior do dom da organização.
Mas o sacrilégio maior é o o improviso.
São muito exigentes, nada está bom para eles, pois só assim conseguem afirmar a sua superioridade racial.
Alguns operam disfarçados de prestativos.
(Outro ataque de risos!)
Eu quase fui dominada. Não tenho vergonha de dizer.
Antes digo isso com uma coragem heróica que me infla o peito, consciente das lutas que passei, como um soldado aliado sobrevivente na batalha da Normândia.
Sobrevivi aos julgamentos, aos olhares frios, aos questionamentos, carraspanas e interrogatórios. Não me abalo mais. Só informo meu posto e número de série.
Mas a vida é uma coisa muito incrível mesmo... Louca viagem ao desconhecido, onde coisas sem sentido, coisas boas, decepções, alegrias, coisas tontas, catástrofes, dores, golpes, coisas maravilhosas, paixões, traições, coisas sérias, coisas péssimas, coisas ridículas acontecem.
Às vezes, surge do nada um relâmpago de felicidade que dura justo 5 segundos, mas tão intenso e belo, tão puro e reluzente, tão catalizador, que pode ficar no coração por toda uma vida.
Sentimentos, sensações, milhões de emoções incontáveis que permeiam a alma humana.
O amor, por exemplo. Ah, as surpresas da paixão! A garganta seca, o ar que falta, o suor que sobra, a taquicardia e o rubor - que ódio, fui descoberto - a eletricidade daqueles olhares que se cruzam daria iluminar uma cidade.
E se a nossa biologia em segundos se altera, que dirá nossos planinhos!
O amor. Vive-se para aprender do amor. Vive-se pensando nele. Vive-se pensando em amar e ser amado. Alguns vivem para perseguir o amor enquanto outros parecem que são perseguidos por ele. Alguns nunca o encontram.
Livros e livros que falam do amor. Leio, leio, e leio mas ainda acho que não sei tudo. Tem sempre algo que me escapa, algo a mais, algo além. É tesouro que não se guarda em caixa. Quanto mais se recebe, mais se dá. Não se contabiliza, para desespero dos planejadores, calculadores e pesadores de balança.
Fazendo contas, pesam os sentimentos e afetos, pra ver se eles tem o mesmo peso e o mesmo valor, como se fossem produtos de supermercado.
Quanto mais se divide, mais se multiplica, o amor. Quanto mais o agarramos com as nossas mãos, mais ele se encolhe e, triste, diminui. Quando o deixamos livre, abrindo as nossas mãos para o ar como se libertássemos um pássaro, mais alto ele voa. E mais alegre ele retorna pra nós.
E assim feliz, como um passarinho, a amor voa no céu do nosso coração, a fazer desenhos e piruetas, enchendo a nossa vida de uma alegria que só criança tem.
''Abra a mão e feche os olhos!'' - me lembro daquela brincadeira de criança - que um surpreendia o outro, colocando-lhe nas mãos uma coisa bonita, uma bala, uma pedrinha, uma flor, uma joaninha... De mansinho, o recebedor do presente abria os olhos pra ver aquela coisa - coisa boa, com certeza!
Sabe aquela fé de criança? Ninguém duvidava que a coisa era boa mesmo. Ela que estava alí e era tão boa, tão linda e tão maravilhosamente sua.
Eu gosto muito de criança, me sinto ainda criança por dentro e estou sempre de olho nas crianças, porque elas me fascinam. E me ensinam muita coisa. Me ensinam a lembrar do que já vivi, do que já esqueci. E me inspiram a continuar amando, aprendendo e recomeçando.
Por falar em recomeço, lá vem o ano novo, estamos já em janeiro de 2010!
Imagem mental: cara de bobo, boca aberta, olho arregalado. Tem tanta coisa do ano velho que eu ainda nem resolvi! O ano velho ainda está aqui no meio, atravancando a minha sala, atrapalhando o meu caminho, com seus saldos e exigências, montanhas de papel e presentes do natal para trocar. Ninguém merece.
Mas eu quero viver o novo... O que fazer?
Acho uma qualidade espetacular o saber virar a página. Deixar para trás o que para trás ficou. Ir andando em frente, o ventinho fresco das possibilidades batendo nas bochechas, revigorante.
Há que se ter muita coragem para ir em frente assim, de mãos abertas e olhos fechados, e esperar que a Vida traga uma surpresinha, e confiar que a coisa será boa, muito boa.
Cabe aqui uma explicação. Não sou contra a razão. Seria estúpida se a negasse. Também olho para o relógio, apesar de não ter uma relação bem resolvida com ele. Também faço conta e uso régua.
Mas se estou aqui escrevendo e pensando, e lembrando e revivendo, sonhando e desejando, é porque a razão que há em mim está positiva e operante, graças a Deus.
Sou é contra a racionalização da vida, sou contra os planejamentos estranguladores, sou contra o papel valer mais que a coisa viva. Odeio a ditadura que eles me impões, porém convivo com alguns, aguento alguns, suportp alguns e até amo alguns planejadores.
Sou mais a Razão junto, ou um pouco atrás da Sensibilidade, lembrando Jane Austen.
Não muito atrás, mas gentilmente, cordialmente, educadamente atrás dela, como um galante e inteligente cavalheiro que cede o lugar para a linda dama porque sabe intimamente que vai deliciar-se ao vê-la passar, com sua beleza estonteante.
Embora seja bem viciada na tecnologia - tiro tudo o que posso dela - não sou feita dela. Não sou um robô, não sou máquina, ela não manda em mim.
Não sou de plástico nem de papel, por isso não quero ser uma folhinha de planejamento, cheia de anotações que serão fatalmente rabiscadas e corrigidas pela Vida.
Quero ser livre. Quero pensar e sonhar acordada. Quero - meu Deus, é agora que me matam - perder a hora por estar sonhando acordada.
Quero sentir o coração descompassado a correr atrás de uma coisa nova, como moleque que corre atrás de borboleta.
Se não for assim, o que serei? Serei um calendário!
E terão que me jogar fora quando o ano acabar.
Mas eu sou mais do que um ano, mais que uma folhinha.
Mas essa é a minha escolha. Talvez você seja um planejador.
Boa sorte, pra você, seja feliz sendo o que você é.
Viva a sua escolha, porém medite bem nela - citando a bela metáfora de Henri Nouwen - como quem olha para o cálice que tem nas mãos, e pensa bem antes de bebê-lo. Afinal, cada um tem o seu cálice de vida. Intransferível.
Eu desejo o ar novo que vem vindo, trazendo perfume de flor que acabou de desabrochar e talvez trazendo a chuva.
Desejo andar descalça e sem armaduras para viver a minha vida.
Desejo que a vida, a minha amiga Vida, que corre muito mais rápido do que eu e brinca comigo de pega-pega, me pegue de sopetão, me segure pelos ombros e rindo, grite nos meus ouvidos: ''abra a mão e feche os olhos!''
Feliz ano novo pra vocês, amigos de qualquer natureza. Com surpresinhas. Com céu azul, com nuvens bem branquinhas. Com cheirinho de flor, com sombra de árvore, com fruta colhida no pé. Com passarinhos, borboletas e joaninhas.
Com barulhinho de água de riacho, com limonada gelada no calor. Com bolinho de chuva feito pela avó, pela mãe, pela sogra, pela tia, pela irmã, ou pela amiga.
Com banho de mar e tempestade de verão. Com mãos dadas em silêncio de paz.
Com um novo desafio, um novo projeto, um novo desenho, de grafite ou nanquim - essa é velha - bem pintado de lápis de cor, no papel manteiga, com um pequeno borrãozinho de café. (A minha tribo arquitorturada saberá do que falo!)
Com passeio de bicicleta no fim da tarde. Com disparos deliciosos no coração e arrepios na espinha. Quem sabe, um beijo roubado. Com mantinha e abraço quentinho no frio.
Com pores e nasceres do sol. Com lágrimas de alegria. Com riso de criança. Com paixão, com sabor, com a loucura das coisas que não entendemos, que não controlamos e que não mudaremos.
Porque seria terrivelmente enfadonho um caminho tão retilíneo, tão previsível, tão planejado, tão acabado. Eu não sei vocês, mas eu quero continuar brincando.
Feliz 2010
terça-feira, 10 de novembro de 2009
Ai, Dotorrr!
(Este poema caipirinha eu fiz para o meu doutor)
"Dotorrr, dotorrr...to cum dorrr!!"
O pobre doutor passa os dias
e noites ouvindo ais!
Mas hoje, nada de urgente.
Seja, sim, bom paciente:
Ligue e diga "feliz aniversário"
e deixe o doutor contente!
Não se importe com presente...
Ah, dr. Marcos, que cuida tão bem da gente!
Seja forte e tranquilo,
muito, muito inteligente,
sábio e demais prudente!
Que a paciência nunca acabe,
pra cuidar de tanto paciente!
Faça a dor diminuir e o amor vá espalhando
E com suas brincadeiras, já vá o doente tratando!
Deus sabe que tempo quente
não tem, pra esse doutor valente!
Parabéns, dr.Marcos!
Mas que belo coração...
Sempre a todos atendendo, enchendo a recepção!
Saiba que Deus está vendo
e gostando do seu jeitão.
Dele virá recompensa na hora da precisão.
Este, sim, é o maior presente!
Parabéns, dr. Marcos!
"Vamo" em frente, que atrás vem gente!!!
"Dotorrr, dotorrr...to cum dorrr!!"
O pobre doutor passa os dias
e noites ouvindo ais!
Mas hoje, nada de urgente.
Seja, sim, bom paciente:
Ligue e diga "feliz aniversário"
e deixe o doutor contente!
Não se importe com presente...
Ah, dr. Marcos, que cuida tão bem da gente!
Seja forte e tranquilo,
muito, muito inteligente,
sábio e demais prudente!
Que a paciência nunca acabe,
pra cuidar de tanto paciente!
Faça a dor diminuir e o amor vá espalhando
E com suas brincadeiras, já vá o doente tratando!
Deus sabe que tempo quente
não tem, pra esse doutor valente!
Parabéns, dr.Marcos!
Mas que belo coração...
Sempre a todos atendendo, enchendo a recepção!
Saiba que Deus está vendo
e gostando do seu jeitão.
Dele virá recompensa na hora da precisão.
Este, sim, é o maior presente!
Parabéns, dr. Marcos!
"Vamo" em frente, que atrás vem gente!!!
segunda-feira, 19 de outubro de 2009
O Baile (ou Uma Cinderela na versão do caos)
Embora fossem dias de festa, os olhos das pessoas diziam outras coisas. No lufa-lufa das compras de natal, as ruas apinhadas de gente, as calçadas entupidas de camelôs e sorveteiros e toda a sorte de gente esquisita, os sons de odiosas músicas de pagode e axé, vindos de diversas lojas, o comércio enlouquecido competia entre si pra ver quem conseguia atrair mais cliente. Que idéia estúpida. Só faziam afugentar, pelo menos, os desesperados por descanso e quietude, como ela.
Sentou-se, exausta, no sofá da sala do pai, no apertado apartamento que agora era só dele, examinando o que mais naquele ano estava irremediavelmente diferente de quando mamãe partiu. Menos enfeites. Nenhuma flor em vaso algum. Não havia cheiro de comida, embora houvesse comida pra comer, comida própria para a ocasião - outra coisa estúpida do natal - mas tudo feito fora, então a casa não cheirava a comida boa, aquele perfume de ingredientes que dançava no ar quando a mãe estava ali, arrumando as coisas do natal. A mágica da comida. A ciranda dos ingredientes para formar o cardápio, escolhido minuciosamente para causar o efeito desejado, de acordo com o tema. Mamãe e sua arte dramática: a culinária.
Foi uma época luminosa da vida. Mas acabou-se. Restava o cheiro insuportável de cigarro do pai – último dos vícios - e da comida medíocre e encomendada do restaurante da esquina. Restava o pequeno apartamento de cores pardas.
Agora estava a filha lá, sentada no sofá do pai, fazendo a visita. Ela sentava-se como visita e sentia-se como visita. O sofá tinha uma capa protetora de tecido sintético que não ajudava muito a visita a permanecer sentada. A trama áspera e escorregadia fazia com que a permanência no sofá fosse um suplício, dentre todos os outros suplícios do cenário. Uma aventura, um risco, a iminência de desgosto a acontecer e o desconforto do sofá. Permanecer sentada era quase uma maratona. Era preciso erguer o corpo e endireitar as costas a cada cinco minutos, fazendo forças com as pernas, com os pés apoiados firmemente no chão, no curto espaço de chão descoberto pelo tapete felpudo, para permanecer sentada ali. Mas todo esse esforço era menos difícil do que o penoso esforço de conversar com o pai.
O pai, que não falava. Sentado no outro sofá, o menor, de dois lugares, tinha também o mesmo tecido, com apenas uma diferença, a cobertura protetora parecia respeitá-lo, ao menos não expulsando seu corpo frágil para fora, de forma que ele não tinha que lutar para ficar sentado.
Anos e anos se passaram e a mãe não veio. A mãe, salvadora da pátria, não podia mais vir. Não podia mais entrar na sala e puxar um assunto qualquer que aquecesse o ambiente. A mãe não podia mais contribuir com o seu sorriso nem com o seu cardápio, coisas que enchiam os corações de alegria, ao menos enquanto durassem as refeições.
A mãe fazia falta. Meu Deus, como ela fazia falta! E aquela falta doía mais quando a filha olhava para a reles árvore de natal, pequena e pobre, meio torta, ao lado do sofá entre ela e o pai. Ela se lembrava da mãe, dos natais passados, da árvore que a mãe arrumava – só isso já era um espetáculo – e do papel que a mãe tinha escolhido representar. O papel da protagonista da história era o papel da mulher feliz e vencedora. Seria uma versão adulterada da Cinderela, onde a única coisa que permanecia da história original eram as tarefas intermináveis. O resto era diferente. O baile era a mãe dançando entre as coisas, no espaço da sala de estar, executando as tarefas com uma alegria suprema, como se viver fosse um favor que era preciso retribuir. O jeito mais apropriado de retribuição sempre foi e sempre será a maldita gratidão.
Então sorrir e ser feliz eram sinais de gratidão à vida, mesmo aquela vida estragada pelo mau-humor crônico do pai. A vida precisava ser vivida e paga com alegria. A alegria era o antídoto que a mãe usava para espantar a dor e o amargo das coisas que não deram certo, e das coisas que nunca iam mudar. Talvez, por isso, a filha tivesse um tal desprezo pela alegria, ou pela demonstração sistemática da alegria, que recusava-se firmemente a participar do “baile” na sala de estar. Porque nada pode ser, neste mundo de meu Deus, vinte e cinco horas por dia, totalmente ou sempre alegre ou contente ou feliz.
Aquele sistema de alegria não servia para ela. Porque o drama não tinha fim. Afinal, onde estava a fada-madrinha? A filha esperava a reviravolta da história. Aquela hora em que o drama se estreita e atinge um ápice e na tensão do peso das circunstâncias, torce a trama para um novo caminho, que anuncia a resolução. Agora, vai! E o príncipe? Esse era o item mais difícil do espetáculo, o ator estava mais para mendigo louco do que para príncipe. Seria realmente um grande feito quando a fada-madrinha chegasse, e ao invés do milagre do vestido, primeiro sinal da prodigiosa força da sua varinha, transformasse o mendigo louco em príncipe. Mas a fada-madrinha nada de aparecer. Será que um dia ela chegaria e transformaria a alegria falsa em verdadeira? Se houvesse uma fada-madrinha... Ela, com sua varinha mágica, poderia transformar o pai num alguém que desejasse ser normal, que com um humor normal, às vezes conversasse e ficasse, de vez em quando, modestamente, discretamente, feliz.
Mas, nesse mundo louco, milagres só em livros e desgraças reais em profusão. Não podemos deixar de crer – também era uma outra especialidade da mãe: crer – que coisas boas podem acontecer. Ela deletava a parte das desgraças. Dessa parte ela não se lembrava nunca. Ignorava. Era o seu jeito de lidar com as coisas que não conseguia mudar. Não existem só as desgraças. Existem coisas boas acontecendo, agora mesmo. Onde? A filha, no início, não duvidava disso, apenas os momentos bons eram tão poucos e foram rareando e rareando que não sobrou mais nada senão a tristeza e o desgosto, de forma que a filha, ainda menina, deixou de esperar que coisas boas acontecessem.
A mãe dizia que para que as coisas boas acontecerem era preciso atraí-las com um coração feliz. Então, nos dias em que a mãe se achava triste, com a alma cortada em pedaços e o coração em migalhas espalhado no peito, ela tomava banho e punha-se a perfumar-se e arrumar-se, num espetáculo solitário e frenético, até que ficasse linda e irretocável, perfeita e bela, como ela queria ser. E ao se olhar no espelho, vendo-se perfeita e bela, todas as tristezas iriam embora, porque naquela imagem refletida, não havia lugar para elas. A mãe, naturalmente elegante e graciosa, arrumava-se diante do espelho, reconstruindo-se do caos que foi a noite anterior. Tampando as dores e as olheiras com pancake e rouge. Haja carmim!
Mamãe, ponha um colar de pérolas! pedia a menina. Não, pérolas, não... (ela nunca usava pérolas). As pérolas são o sofrimento da ostra.
Então, será que a culpa era da filha, que não ria, e não era feliz? A filha, nisto se parecia com o pai. A filha não existiria sem aquele pai, se fosse de outro pai, seria outra filha. Logo ela acabou achando que era melhor se pintar também.
Portanto, era vetado por a culpa no pai. A família é sagrada, dizia a mãe. Pai é pai, mãe é mãe. Não se critica, não se questiona, se aceita, se honra, se obedece. Com humor ou sem humor, com amor ou sem amor. Aceita-se e vive-se.
Não se sabe por quê, a filha lembrou de um ditado que dizia "família só a sagrada, mesmo assim na parede pregada". E intimamente riu-se do trocadilho.
Espera-se. Espera-se, agarrando um fiapo de crença emprestada de que as coisas boas ainda iriam chegar, porque elas existem e era só uma questão de tempo. Agora o tempo passou, a mãe morreu, os filhos ficaram sozinhos e orfãos e o pai ficou com eles. Que ironia, o pai ficou com os filhos! Ele que nem sequer sabia conversar com os filhos. Ele, que não sabia do que tinha acontecido na infância deles. Ele, que nunca perguntava nada e portanto nada sabia deles, a não ser as notas dos boletins e de algumas brigas na rua. Ele, que nada sabia daqueles filhos que ele mesmo tinha gerado, no vigor da sua juventude, no calor da sua paixão carnal pela mãe. Ele, que esquecia dos aniversários.
Então agora, aquele apartamento, que não tinha mas o cheiro dos cuidados da mãe, era o lugar que, de vez em quando, como numa visita, a filha vinha ver o pai, porque ele era o pai e ela precisava vê-lo, além do que ela só tinha aquele. Vinha sempre com uma pontinha de esperança de que algo novo acontecesse, que alguma coisa mudasse, quem sabe ele desta vez ficasse feliz com a visita da filha, quem sabe ele quisesse saber da vida da filha e fizesse umas perguntas e a conversa fluísse animada.
Era essa a tal da fé que ela insistia em ter no coração, herança da mãe.
Nos olhos baços do pai havia um denso vazio. Era como se ele não estivesse ali. Era como se, pouco a pouco, a tristeza dele sugasse sua alma para algum lugar, deixando o corpo abandonado ali naquele sofá, esperando por algum tipo de redenção. Talvez ele se lembrasse da mãe. Talvez lamentasse o amor que não deu. Talvez chorasse suas lágrimas secas e por dentro estremecesse de soluços o seu corpo duro. Talvez gritasse por dentro de si um grito lancinante de arrependimento. Porém, não havia mais tempo, o cenário mudou, as coisas se perderam, as forças acabaram. Sobrou apenas um imenso vazio, cheio de saudade. E tudo eram memórias, mergulhadas no silêncio da resignação.
quarta-feira, 2 de setembro de 2009
Vidinha
Tenho tido uma imensa preguiça de ler tudo o que despejam nos meus emails. Espanta-me a nulidade dos assuntos que, disfarçados de propagandas, promoções e informativos urgentes e importantes, misturados com centenas de mensagens ralas, enfeitadas com lindas imagens e trazidas em primorosas montagens em power points. Todas se apresentam com aquele alarde, traço característico daquilo ou de quem geralmente encobre uma única coisa: toda aquela pasmaceira não tem nada de útil ou de valor a oferecer. É um poço de ninharias, um grande vazio, uma perda de tempo que eu não suporto mais. Por que as pessoas passam tanto tempo na internet, eu não sei. Ou melhor, pensando bem, eu sei. Acho que é uma perseguição inconsciente do mito do ócio produtivo. As imagens da tela vão hipnotizando a pessoa, que inconsciente e indefesa, está a ser seduzida pelo sonho da vida ideal. Com tanta informação, e tantas possibilidades, quem sabe se ache alguma boa idéia que faça a vida ficar menos vidinha, menos sem-graça, menos comum. Vem lá umas coisas úteis, mas a grande maioria, verdadeiramente, certamente, indubitavelmente, inútil, que nada mudam. Um dia, meu pai, com aquele tom sóbrio e taciturno de quem já sabe o que vem pela frente na vida, me passou uma reprimenda, a qual me produziu um grande desconforto, em ver que eu me deixava seduzir também por essas baboseiras recheadas de sandices. Meu pai me perguntou a queima roupa, "quanto tempo você passa conectada à internet? Ai, ai, ai... gemi interiormente, esperando a tormenta que no céu da sala se anunciava. Naquela época - sou obrigada a admitir, porque não posso, não quero e não vejo proveito algum em mentir - eu estava fanática pela internet. Mas como eu pensava, pensava e não respondia, lá veio à reformulação da pergunta de quem não tem o hábito de abandonar nada pelo meio: "Conectada a internet, quanto de trabalho você produz e quanto do seu tempo você gasta ali?” Aquela frase soou como uma martelada batendo na minha cabeça. Expliquei algumas coisas ao meu velho pai. Penso que por estar velho, vai se desinformando sobre a modernidade. Ledo engano. Sabe mais ele da modernidade e dos seus nocivos efeitos do que eu. Expliquei que era possível falar com pessoas que estavam do outro do lado do mundo, achar um texto pouco conhecido ou divulgado, achar um livro, executar uma pesquisa. "Pai, há sites puramente científicos", mencionei, em tom grave. Na internet podemos achar todos os tipos de produtos e objetos. Lá vem ele, "alguns poucos úteis e outros tantos milhares inúteis. E sabe qual outro grave problema decorrente disso? as compras on line." Ai, ai, ai... gemi de novo. As compras on line que são tão fáceis de se fazer e tão difíceis de se pagar. Como num passe de mágica, em dois ou três dias chegavam à minha porta com espantosa rapidez os objetos desejados, me poupando do transtorno de procurar em vão nas lojas entupidas, rodar dezenas de quilômetros para encontrar uma vaga de estacionamento na rua, ser apertada pelo povaréu, me cansar e só me aborrecer. Daí percebi uma coisa. Algo, de repente, ficou muito claro na minha frente. Foi quase como um despertar, uma súbita iluminação mental no entendimento: não se acha nada do que você precisa, q u a n d o você precisa! E quanto mais precisa, mais procura, menos acha, mais se cansa e mais tempo se perde, e mais se frustra. Às vezes, precisamos desesperadamente. Seja de um sapato, de um presente de aniversário, ou de um livro, ou do papel fosco para desenhar os imprescindíveis croquis de projeto, ou um vestido para uma festa. Já me resignei com essa verdade, acho até que é mais do que uma verdade, é uma lei, não diria de Murphy, mas de Deus, que não quer que a gente desperdice a nossa inteligência com coisas vãs. Não quer que a gente sofra e se aflija por coisinhas. Deus quer nos proteger da mediocridade. "Não estejais inquietos por coisa alguma". Coisas terrenas e dispensáveis, coisas e coisinhas, passageiras e insuficientes em si mesmas para nos agregar algum valor de vida. Parei de procurar nas lojas, achei que tinha me libertado daquele tormento exaustivo e obrigatório de entrar de loja em loja, como se fosse uma maratona, ver o que combina com o que... os brincos com a amiga, o livro com o outro amigo, a caneta para uma pessoa formal e importante, a maquiagem que acabou. Que idiotice, pensei, as pessoas andando de carro, vagando, entupindo o centro daqui que já é minúsculo - resultado da organização provinciana de séculos atrás, onde a sociedade rica pelo café, não precisava se preocupar com a largura das ruas. Achavam que o mundo ia permanecer como estava, as mulheres passeando de chapéu, sombrinha e luvas, proseando na rua, desfilando seus vestidos naquele passo lento de quem não tem mais nada pra fazer, senão usufruir e ostentar suas riquezas. Os homens também, talvez de forma pouco mais produtiva, liam o jornal e falando de política ou dos acontecimentos locais, ou das belas damas que desfilavam ao redor, mas também eles estavam a exibir-se. Pelo menos tudo isso prestava para terem alguma vida social, coisa que não temos hoje. Não paramos na praça, não caminhamos no fim da tarde para ver o por do sol e conversar com os amigos e tomar um café, pensando nos acertos e desacertos daquele dia. Trabalhamos e trabalhamos e corremos e não nos sobra tempo para viver. Não temos quase que nenhuma vida social, embora tenhamos dezenas de opções de programas para fazer com aqueles poucos amigos que restaram e que valem à pena. Então achei de ser esperta e tratei de aproveitar o mais excelente recurso da tecnologia que nos é oferecido na atualidade -tão facilmente, embora não de graça - que é a internet. "Agora vai me sobrar mais tempo!"Caí fragorosamente, numa armadilha, noutro círculo de futilidades, um redemoinho que nos puxa para dentro do computador e ali vão se esvaindo as horas da vida que já é tão breve... e a gente a se afundar no mar dos anúncios, das pesquisas, das informações, pulando de um link para o outro, numa busca que não cessa, que não tem fim. Enquanto isso, perdemos de conversar com os filhos, que já passam tempo demais fora de casa. E também perdemos de olhar nos olhos do marido ou da esposa, e ver que o dia dele ou dela não foi nada fácil, e como cairia bem uma boa conversa e talvez um abraço. Mas não dá. Estamos lá presos na cadeira e colados ao computador. Disfarço, grito e minto: "já vou indo aí" . Mentira, não vou nada, não saio dali. As pessoas vão dormir e eu fico sozinha, cansada, com dores das costas. A cabeça fervilhando de informações de demorarei um século para separar as úteis das inúteis. Ficarei perdida fazendo essa seleção e quando eu achar o resultado, o problema já se resolveu e aí a informação tão preciosa que eu achei, não adiantará de nada. Sonhamos sonhos tão grandes e mesmo assim fazemos da vida uma coisa menor, confusa e vã, como as imagens que pulam nas telas, nos deixando de alma seca e mãos vazias.
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