quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Sentidos

Ela revirava as gavetas buscando alguma coisa que ele tivesse escrito, mas sabia muito bem que ele detestava escrever, ainda mais para falar de coisas nada práticas como o amor. Mesmo assim, ela revirava a gaveta com muita pressa, mas só achava remédios vencidos. Ele era um homem muito prático. Ele tinha muito que fazer e ela na maioria das vezes não tinha tanta coisa pra fazer. Só cuidar da casa, das crianças, ir ao supermercado, abastecer a geladeira. Era muito importante abastecer a geladeira. Era também muito importante encher a cesta da cozinha de frutas variadas, pois ele gostava de chegar e ver que as frutas estavam lá, à mão. Nem sempre ele comia fruta, mas gostava de vê-las ali. E ele achava que se as crianças vissem as frutas, iriam desejar comê-las. Porém, apesar dos esforços, toda sexta feira – que era o dia de arrumar a geladeira e a cesta de frutas – muitas delas iam para o lixo. Mas não tinha problema. Porque sempre ela poderia descer a rua e passar na frutaria. Depois da floricultura era o lugar que ela mais gostava de ir. Que perfume delicioso! Às vezes, nos dias de sol quente, se podia sentir o perfume das frutas apenas passando na rua. Ela passava devagar com o carro, só para respirar o perfume das frutas misturadas. Um dia, por acaso, no shopping, achou um perfume desses fresquinhos. O vidro era bonito,simples. O aroma era alguma coisa parecida com manga, laranja, jasmim e rosas brancas. Ela lembrava bem porque ficou segurando o vidro enquanto a vendedora da loja de perfumes insistia em mostrar outros perfumes mais sofisticados, lançamentos. Ela sorriu e pediu para a vendedora fazer o favor de buscar-lhe um copo de água. Só para a moça se afastar um pouco e deixar que ela, quieta, pudesse lembrar porque aquele cheiro lhe parecia ser o da felicidade. O que aconteceu, em que dia, de onde surgiu aquele cheiro? E a sensação de felicidade que ele enlaçava? Ela não sabia dizer. Mas comprou o perfume mesmo assim. Vinha pensando, enquanto dirigia de volta para casa, nas coisas sem sentido que lhe faziam tanto bem. Apesar de que agora tudo precisava ser racional. Mas o racional era tão sem graça. O racional era inodoro. Racional era encontrar a gaveta cheia de remédios vencidos e nenhum bilhete com a letra dele. Claro, nunca mais ninguém mexeu naquela gaveta! Isso era função dele, cuidar dos remédios. A função dela era procurar bilhetes e laços de fita que combinassem com o pacote. A função dela era achar papéis e lápis coloridos para as crianças. Era colocar flores para o vaso de cristal da sala. A função dela era esperar por ele. Ela deixava a casa aberta apesar dele sempre achar isso muito ruim por causa da segurança. Mas ela gostava da fresca da tarde entrando pelas grandes janelas da sala, enquanto ela arrumava as flores no vaso. E ele sempre chegava, às vezes tarde, às vezes muito tarde. Mas chegava. Chegava e a primeira coisa que fazia era sorrir mostrando que estava feliz por ter chegado. E assim foram passando os dias, os anos, com tantas flores e cestas de frutas chegando. Tantos papéis, laços de fita e surpresas boas. Tanta espera, tantos beijos. Tantas partidas e chegadas, soluços, viroses e rinites. Tantas coisas acontecendo que não se podia saber onde ia dar tudo aquilo. Ela pensava que ia ser sempre assim. Essa certeza era a coisa mais estável que ela conhecia. Mas depois a vida mudou abruptamente. Sorte que as crianças já haviam crescido. Crescidas, podiam guardar para si o choro da tristeza de não ter mais o pai por perto. Ele não escreveu bilhete algum. “Que droga de preguiça de escrever”, ela pensava, com raiva. Como se isso fosse algo mesquinho, uma falha imperdoável. Imperdoável, partir de forma tão brusca. E foi em um domingo, dia em que não se trabalha. Assim, ele não incomodou ninguém. Partiu silenciosamente, respeitosamente. Sem queixas, nem gemidos, sem pedir nada. Ela não sabia o que pensar, nem naquele triste dia, nem agora. Uma mistura de todos esses ares, de tudo o que viveram, enchia seu coração como uma grande calmaria depois da tempestade. Então ela parou de procurar bilhetes, parou de sentir raiva de não achar nada. Sentou-se e sossegou. Algumas lágrimas lhe escaparam mas foi só isso. Ela já tinha chorado tanto. A cama cheia de coisas parecia muito maior agora. Resignada, arrumou o quarto. Recolheu todos os remédios vencidos e os jogou no lixo. Esticou-se para trás e abraçou a si mesma. Tudo estava bem e em ordem. Mesmo triste e sozinha, ela se sentiu bem. Talvez por causa do perfume sem sentido que estava em toda parte. Talvez por concluir que melhores coisas da vida, assim como as piores, não tem sentido algum.

Mágica para um menino

Morceguinho, morceguinho,

Pendurado, tão quietinho

De ponta cabeça, tristinho

Largue disso bem depressa,

E da preguiça se esqueça.

Olhe o sol, veja as flores

Desvire, descubra, decole!

Desvirado, não enrole

Voe pra cima, bonito

Para o céu azul pertinho,

E o calor do sol te aqueça

Voe bem alto e cante

Brinque nas nuvens, nas cores

E quem te olha se encante

Faça novas peripécias

E voando, se transforme

Em menino passarinho!

sábado, 20 de outubro de 2012

Solidão

O consultório do dentista é no centro, o que já dificulta muito a gente querer ir lá. Os consultórios, em geral, deveriam ficar em um lugar aprazível, calmo, pra gente poder sair do médico ou do dentista e realmente relaxar. Ô, coisa difícil, ser examinado. Naquela hora você não manda nada, não pode falar nada - nessa hora é pior o dentista, que mete um troço na boca da gente e você fica realmente preso e mudo. Bom, fazia tempo que eu não ia ao consultório, e por estar realmente precisando - uma obturação quebrou - tive que vencer o medo, o tédio e ir. O dentista é muito cordial e agradável. Respeita o meu medo, sabe o tamanho dele. Sabe que tem anestesia que não pega em mim. Sabe que tem remédios que eu tomo e é como chupar uma bala. O dentista calmamente me conduz à cadeira e eu vou indo, lentamente, me sento, me largo, me deito. Ah, que bom poder deitar naquela cadeira e deixar alguém cuidar de alguma coisa em mim. Houve tempos em que ir ao dentista era coisa de filme de terror. Quando eu era pequena, meu pai me levava em um dentista perto da casa da minha avó. Ele era uma homem magro e alto. Íamos a pé, como sempre fazíamos tudo. Meu pai me levava pela mão, cuidadoso, sério. Não falava nada. O velho dentista não tinha jeito com crianças ou ele percebeu que eu não tinha jeito com dentistas. Não sei de fato qual era o problema. Sei que ele não me via, não me enxergava, não perguntava o que eu queria, o que eu sentia e só me mandava aguentar a dor. Naquela época, tinha uma pulseirinha de couro nos braços da cadeira, de forma que ele podia prender os braços do paciente - olha o filme de terror - e assim a gente não podia mexer os braços e atrapalhar o trabalho de carrasco dele. Lembro um dia que eu surtei, achei que ia enlouquecer, porque ele além de prender meus braços, colocou um ferrinho na minha boca e eu não podia fechar a boca! Minha mãe, graças a Deus, teve o bom senso de não me deixar, não sair da sala e, preocupada, perguntava como eu ia fazer se doesse. Oh céus, como eu ia fazer? Ia fazer o que eu fiz, gritei, gritei, chorei, esperneei. Saí de lá exausta, suada, zonza, dolorida e com um ódio mortal daquele terrorista com diploma na parede. Como alguém podia pagar para ser tratado assim? E onde já se viu tratar uma criança desse jeito? Burro, só pode ser uma pessoa burra. Burra com diploma. Tem muitos por aí. Graças a Deus, minha mãe tinha bom senso e nunca mais me levou lá. Daí achei melhor, quando cresci, ir o mínimo possível aos consultórios, fossem do que fossem. Aliás, eu nunca ficava doente. Mas quando ficava, achava que ia morrer, de tão ruim que eu ficava. Teve uma vez que fiquei tão ruim que o médico foi em casa. Com febre, delirando, acordei com a mão dele na minha testa. Abri os olhos e vi aquele sorriso tão bonito, o olhar firme e preciso através dos óculos de hastes finas, prateadas. Como se me enxergasse por dentro, ele me disse: "Calma, Rosinha, você vai ficar boa!" E sorriu, e fez recomendações à minha mãe. E me deu um remédio. E logo foi embora, pois era ocupado. Meu dentista me explica e eu tento acompanhar o raciocínio científico dele, que meus caninos estão ... (vou contar do meu jeito) estão precisando encontrar com os dentes da mandíbula inferior, pois eles são sensíveis à minha identidade (hã?) e eu preciso encontrar comigo mesma - a conclusão é minha - um dente com o outro, daí o meu cérebro saberá que os meus dentes estão se fechando perfeitamente. Mas eles não se encontram, não se fecham perfeitamente, existe um vão, um vazio - oh, que coisa - e meus caninos estão solitários e não podem mais continuar assim. Ele me explica o esquema da solução da minha boca. Eu só conseguia pensar nos caninos solitários. Até os meus caninos estão solitários. Apareceu um gato na minha casa, ele insiste em ficar no hall de entrada e passear no meu jardim. Meus filhos já viram e não gostaram nada. Gato folgado. Meus cães viram e ficaram loucos pois o jardim é ao lado do canil. E eu não sei o q fazer. Tenho vontade de pô-lo para dentro. Mas não posso. Quem sabe um dia, quando os filhos forem e eu ficar. Eu nunca sei quando o gato vem nem quando ele vai. Só sei que eu amo vê-lo passar pelo jardim, espiando pelo vidro do hall, olhando em volta, quem sabe, procurando por mim.

terça-feira, 19 de junho de 2012

Renovo

Meses e meses se passaram e a filha voltou. Voltou silenciosa, atenta. Voltou solitária e independente. De vez em quando, sorri. Na volta do aeroporto, a moça descansa a cabeça no ombro da irmã mais velha. A mãe observa os detalhes do seu rosto, do seu cabelo que cresceu, das suas roupas desconhecidas. A filha mais velha vela pela mais nova com um amor quase maternal. O filho dirigia com cuidado, como quem se preocupa com a carga que carrega. Malas, malas, malas velhas e novas, pacotes, lembranças e um vaso de flores que a tia deu. A irmã mais velha trabalhou tanto! Fez tudo o que a mãe não podia fazer. Se esforçou muito, com seu jeito quieto e operário, herdado do pai. As mulheres às vezes são muito bobas, querem fazer tudo perfeito. E ficam mais bobas ainda quando viram mães. Se preocupam com tudo, principalmente com que vai acontecer. A mãe tinha lido algo sobre ansiedade numa revista, onde um especialista afirmava que oitenta por cento das coisas que as pessoas temem não acontecem. Mesmo assim, ela continuava se preocupando. E agora, muito mais. Na volta para casa, no silêncio dentro do carro, uma pergunta martelava na cabeça. E agora, como será? Não adiantava pensar nisso, ninguém tinha resposta para isso, mas a mãe pensava. Pensava em como eles seriam uma família dali pra frente mesmo com a falta do pai. À noite, os amigos vieram. A casa se encheu de gente, de amigos de todas as idades. Cada um trouxe uma flor para a moça, que gosta de flores coloridas. As amigas da mãe ajudaram nos sanduíches, nos brigadeiros e na penosa tarefa de retirar as coisas feias do meio do caminho. No outro dia, na tentativa de não ser pegajosa, a mãe foi fazer outras coisas. Foi fazer um almoço caprichado, lavou roupa. Arrumou uma papelada enquanto o cheiro de tinta fresca invadia a casa. Fazia tempo que ela tinha descoberto que aquele cheiro de tinta era como um combustível, dava um entusiasmo instantâneo. Ela gostava do quarto com a velha cor azul mas era preciso renovar as coisas. Era preciso abrir espaço para o novo que chega. E o novo precisava de alegria, para não fenecer antes de crescer. Os últimos meses tinham sido tão difíceis. A saudade do pai era muito densa. Pairava no ar feito uma neblina, envolvia tudo, tornava tudo confuso e indefinido. Agora que a moça chegava, estava mais do que na hora de deixar um pouco de ar fresco entrar, por as coisas bonitas à mostra. A volta da moça era um novo capítulo a ser escrito. Ela espalhava seu perfume doce no ar. E era tão bom tê-la de volta! Estava frio, úmido. O céu nublado e ameaçando chover. O pintor avisa que a tinta pode demorar a secar, por causa do tempo úmido. Mas a mãe não liga que vai demorar. O importante é ficar bonito. O filho, precupado com os gastos, reprovou a arrumação do quarto. Por quê isso agora, mãe? A mãe responde: Porque sim. Ela pensava em pintar tudo, jogar todas as feiuras fora, deixar tudo bonito, um pouco a cada dia. Até que chegasse o dia em que todos da família rissem outra vez. Assim ela falava para Deus logo cedo, uma oração quase infantil, pedindo alegria. E no meio do pior inverno ela percebeu que havia um verão incrível dentro dela.

sexta-feira, 8 de junho de 2012

Obrigações

Não me obrigue a sorrir quando tenho vontade de gritar. O vizinho do lado aparece com seu barulho costumeiro, que chegou antes dele. Como tem gente que pode ser tão grosseira? Ele se mudou e não me disse olá. Ele não se apresentou, mas me aborrece. O que é esse barulho todo? É um espetáculo pobre e desengonçado de estar vivo, onde as pessoas não pagam ingresso, mas são obrigadas a ver. Ele fecha o portão da sua garagem como se fechasse o porão do inferno, com um barulho horripilante, de ferro torto e corroído de ferrugem. Ele deixa o lixo num saco sobre o chão da calçada. Ironicamente, a correspondência dele às vezes vem parar na minha casa e eu tenho que ir devolver. Eu e a minha educação. Só me mete em encrencas. E eu que pensei que o carteiro fosse meu amigo. Outro dia uma mulher, talvez mulher dele, veio me pedir um favor estranho. Que eu gritasse (hã?) pelo muro e chamasse o filho dela que estava dormindo (hã?) e não a ouvia bater no portão. Minha vontade era fingir ser outra pessoa e não morar na minha casa. Mas a mulher do aborrecedor me conhecia e insistia. Disse que estava sem chave de casa e fiquei parada feito boba na calçada sem ninguém. Menti que estava a esperar minha filha que demorava a chegar. Não era para este homem viver aqui. O estorvo da sua pessoa não combinada em nada com nada do que existe nesta rua de vizinhos gentis e amigos, com flores nos jardins e calçadas lavadas. Minha rua está muito feia, todas as flores morreram só as árvores resistem a esse frio congelante, e mesmo assim perderam a beleza do seu vigor, estão com aquela cor macerada e nauseante. Não me obrigue a gostar da rua neste frio. Esta não é a minha rua, a rua florida e quente que conheço. Nesta rua ouvia a voz do meu melhor amigo, que me chamava para olhar os pássaros e ver que a romã já tinha florido. Seu sorriso se foi como o sol que se recolhe no inverno. A única coisa que permanece igual são os tijolos e ladrilhos das fachadas, pois podem ser independente do sol. Estou a ler um dos livros das coleções de meu velho pai. Um livro de contos de Eça de Queirós. Tenho o livro, mas o meu é novo. Peguei o dele, velho, bem velho. Quem sabe eu ache nas páginas amareladas um escrito dele, com aquela letra redonda e bonita que ele tinha. Quem sabe eu ache algo que me mostre que ele foi alegre e feliz um dia, que a vida não era só obrigações, porque já não me lembro. Não costumo aborrecer Deus com pedidos banais, mas hoje estou a pedir desesperadamente que o sol volte.

quinta-feira, 28 de abril de 2011

A vida é muito curta

Houve momentos que de tanto pensar, fiquei desorientada. Havia uma ânsia em mim de entender a vida que não me deixava em paz. - Mãe, por que que vão demolir essa casa tão bonita? E ela dizia: - Porque vão construir um prédio moderno. - Moderno? Mas mãe, o moderno vai ser mais bonito que essa casa? Mãe, olha lá, aquele homem com a marreta na mão, destruindo aquela estátua! Mãe, faz alguma coisa! Coitada da minha mãe. Tinha trabalhado o dia todo e só queria chegar em casa, tomar um banho quente, fazer uma sopinha e ir dormir, depois de banhar, vestir e alimentar todos nós. - Deixa pra lá minha filha, a vida é assim mesmo. Que horror. Não diga nunca isso para nenhuma criança, a vida é assim mesmo. Diga a verdade: - Meu filho (ou minha filha), infelizmente há pessoas que destroem as coisas, enquanto outras tem prazer em construir, plantar, fazer bonito, caprichar, cuidar. Tem gente que quer descer a marreta. A culpa é da ignorância das pessoas, e não da Vida. Mas a Vida, por sua vez, não facilitava em nada a minha vida. Tragava-me. A vida devorava-me viva, sem dó nem piedade, comendo as minhas horas no ir e vir da escola que, conforme eu crescia, ia ficando cada vez mais longe da minha casa. Eu fui me arregimentando como pude para encará-la. Manhãs cinzentas molhadas da garoa gelada de São Paulo. Manhãs agitadas nas novíssimas estações do metrô paulistano - pesadelo do "Admirável Mundo Novo" de Aldous Huxley. O livro, escrito na década de trinta, pouco mais de vinte anos antes de eu nascer, me assombrou por meses. Finalmente, após a inauguração da "maravilhosa" estação Bresser, vi que era perfeitamente possível que os pesadelos se tornassem realidade. Os sonhos não, mas os pesadelos, ah, certamente esses acontecem! Livro admirável, horrenda realidade. Por um bom tempo, vivi triste. Tinha dó de tudo, de todos. Chorava pela miséria, pela sujeira, pela violência e pela feiura do mundo. Até que descobri que, por mais que eu buscasse, jamais saciaria a sede que havia em mim. Entendi que não era uma fase, que não era curiosidade, que não era teimosia, não era falta de coragem. Era esta ânsia uma considerável porção da minha alma. Criaram-me para pensar. Fizeram-me crer que o pensamento possui em si mesmo uma espécie de poder mágico de criação. Instruíram-me para apreciar o belo, a proporção, a delicadeza, as virtudes. Nutriram-me para almejar. Culpa total dos meus pais! (Bendita psicanálise). Me lembrei dessas coisas porque hoje conversei com um colega do mestrado que desenvolve uma pesquisa muitíssimo interessante sobre a arquitetura das estações do metrô, e embutido nisso está o fluxo e o caminhar das pessoas, seus ritmos, seus medos, suas defesas, suas necessidades. Forças que se chocam, a humana e a tectônica. Será que deveria ser assim? A arquitetura não deveria, principalmente e fundamentalmente, abrigar? A arquitetura imposta às massas humanas, essas sem direito à escolha desse - por que não dizer - produto, que a arquitetura também é. Arquitetura do não-lugar para joãos-ninguéns. Fui me formando naquele empurra-empurra. Ia e vinha no metrô, ou no ônibus, da casa para o trabalho, do trabalho para a faculdade, da faculdade pra casa. Aperta, amassa, sofre, espreme. Como milhões de iguais. Aqui na minha terra e no mundo. Lia em pé. Com o livro na mão, como um escudo, sobrava-me isolamento na exata medida em que me faltava espaço. Minha mãe dizia: - Não reclame. A dona Praxédis (senhora muito humilde que trabalhava em casa) vem lá de Itaquera de trem. Se os óculos dela penderem da cara, a pobre vem com eles assim mesmo, na impossibilidade total e absoluta de usar a mão para arrumá-lo. Sabe por quê? Porque ela vem pendurada no varal de gente que tem dentro do trem. Você, ao menos, é livre de óculos por causa dos seus vinte anos. Aproveite enquanto pode. Oh, Deus, que vida! Ainda tinha coisa pior, como a vida da dona Praxédis? O dia em que vi o trem que levava a dona Praxédis para casa dela, chorei a noite toda. Pesava-me a falta de significado daquele trem que trazia pessoas como gado. A tristeza de ver que as pessoas eram, em muitas horas do dia, e em muitos espaços da cidade, uma carga indesejável. Peso a ser empurrado sem necessidade de gentilezas. Fardos da cidade. Castigo social merecido. Maltrato puro. Senti a solidão urbana como um espinho na carne da "maravilha de se morar numa metrópole". Credo. Isso é maravilha? Me parecia um castigo. Eu sonhava com o campo, com a praia, com o fundo do mar, com outro planeta, com qualquer coisa, menos com a cidade grande. Mas logo vi que os livros eram mais do que histórias interessantes, eram alimento para uma alma seca e inquieta, que sofria de um faniquito crônico da falta de explicação de tudo. Falta de nexo, falta de senso, falta de humor, falta de sabor, falta de cor, falta de amor. Falta, falta, falta. Dor. Bom, meu pai dizia que a vida era dura pra quem era mole. Era uma vergonha eu não me acostumar com a rudeza da cidade. Vergonha familiar. Vergonha para uma linhagem de gerações e gerações de paulistanos trabalhadores e raçudos. Isso era tão grave como uma vergonha nacional. Naquela época, não tinha celular. Às vezes, pra fugir do trânsito, para fazer uma graça comigo mesma, para me livrar do tédio de fazer tudo sempre igual, eu inventava de mudar de caminho. Sem mais nem menos, sem a menor prudência ou noção do que estava fazendo, eu dizia pra mim mesma, que se dane, hoje vou por aqui. E via, sim, outros rostos, outras cores, outra paisagem. Me meti em muitas aflições por causa desses arrobos. Meu pai sempre muito silencioso, chegava em casa e me pegava confessando aqueles horrores para minha mãe, na mesa da cozinha. Me olhava com raiva, quase que fazendo uma careta e dizia: - Como é que você foi se perder nesse lugar? Tenha santa paciência, você ainda não sabe voltar de tal bairro? Calava-me, petrificada e estúpida. Calava-me porque sou da geração que não ofende nem o pai, nem a mãe. Porque família é sagrada. E toda vez que ouvia essa frase me lembrava de outra, que me parecia muito mais adequada: "Família só a Sagrada e assim mesmo na parede pregada!" Porém, se eu falasse a verdade naquela hora, meu pai me matava. Ensaiava um murmúrio mais ou menos assim, choroso: - Pai, sabe, eu queria ver uma paisagem com umas coisas novas...Ele, faltando pouco pra me esganar, me respondia: - O quê? Que coisa nova? Um assaltante novo? - Credo, pai. (Deixa-me ir e vir, pai, livra-me por favor, desse fardo de fazer tudo igual todos os dias). Pensava tudo isso e não abria a boca. Chegou um tempo que eu me cansei de tal maneira que, ou pedia demissão e mandava aquele belo emprego às favas - o que não podia ser, porque eu precisava me formar- ou me arrumava uma saída para aquele suplício do ir e vir no transporte público. Fácil. Contratei um motorista de táxi pra me levar cedo ao trabalho e me levar do trabalho para casa. Gastava uma fortuna de táxi, quase metade do meu salário. Que se dane, não suporto mais, pensava. A vida é muito curta para se viver, assim, tão mal. Quieta, no silêncio do táxi - de antemão combinava com o motorista que ele não me importunasse com conversas frívolas do cotidiano, do tempo, do clima, do trânsito, da política. Malditos políticos. Se prestassem pra alguma coisa, a cidade não ficaria nesse caos, as pessoas não viveriam amontoadas. Eu precisava do silêncio para pensar em um problema muito sério, um projeto importantíssimo que estava sob minha inteira responsabilidade. O motorista respeitava o trato. O que ele jamais soube é que o tal projeto importantíssimo era: "A Rosinha precisa sobreviver". Sair viva daquele inferno de vida na metrópole. Pagar caro para ter silêncio e espaço. Quanto a isso, nada mudou (não sejamos ingênuos). As pessoas se matam de trabalhar, para pagar por algum silêncio e um pouco de espaço. Brave New World. Mas o nosso mundo real é muito pior. Um dia, de repente, consolei-me com uma imagem mental muito interessante. Veio-me à mente que Minerva nasceu da cabeça de Júpiter completamente armada. Que beleza. Entendi que nasci da cabeça do meu pai. Já meu irmão do meio, por sua vez, nasceu do ventre masculino do meu pai, do seu apetite voraz, do seu vigor quase selvagem. Minha irmã caçula, doce e meiga, nasceu-lhe do coração. Era fruto dos seus consertos e perdões. Quando pensei isso, sosseguei. Minhas milhares de horas de análise tiveram finalmente uma serventia: descobri que o que eu via como fragilidade era, na verdade, força. Força da idéia, da vida, da ânsia de entender e viver uma vida única, minha. Força de sonhar um mundo melhor. Sonhar pra mim, sonhar para outros. Sonhar um mundo mais bonito, mais gentil, mais de verdade. Força da vontade de desenhar algo que prestasse, com as minhas mãos finas de moça. Mãos que não tinham lá muita força física mas que seguravam o lápis com uma satisfação indescritível, e uma destreza vibrante de possibilidades. E desenhava, desenhava. - Pra que que essa menina gasta tanto papel, desenhando? alguém, às vezes, perguntava. Minha mãe me socorria a tempo, dizendo: - Deixa ela, disso ainda vai sair alguma coisa séria. E saiu mesmo. Devo à minha mãe a escolha da minha profissão. Se hoje sou arquiteta, devo à ela. Escapo da maioria das angústias escrevendo e desenhando. Alinhando, colorindo, olhando, montando, desmontando, virando e desvirando, rabiscando, pintando. Olhando de novo. Namorando. Tecendo uma urdidura de vida e arquitetura. O pesadelo virou sonho, que virou realidade.

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Convivência

Tem dias que não dá vontade de sair da cama. Depois que a gente, enfim, levanta, com o corpo pesando uma tonelada e o ânimo lá no subsolo, vai se espremendo por dentro para achar em algum lugar alguma forcinha para ir fazer as coisas. As coisas, sempre as coisas. As tarefas, as contas, os assuntinhos. Levar aquele sapato no sapateiro. Ir ao banco. Que preguiça de enfrentar o trânsito! Não há lugar para estacionar. Vamos lá pagar uma exorbitância por meia hora no estacionamento. A última vez que fiz isso paguei $2,00 por meia hora. Assalto à mão armada. Fiquei quinze minutos e paguei a mesma coisa. Mas, na hora que mais se precisa, o estacionamento está lotado. Vamos para aquelas 400 voltas no quarteirão para achar uma vaga. Depois os lojistas daqui da cidade reclamam que não se prestigia o comércio local. Fácil falar, né? Que tal criar facilidades para o consumidor? Oferecer o estacionamento graciosamente, por exemplo? Desse jeito é mais fácil ir até o shopping da cidade vizinha, acha-se de tudo, paga-se com cartão, em vezes. Lá pode-se comer de tudo até desde fast food até comida japonesa. E tem estacionamento. Não vai dar tempo... Acho que é a frase que eu mais falo para mim mesma durante o dia! Ainda tenho que levar aquela saia preta fazer a barra na costureira. Como a costureira também está muito atarefada - Deus sabe se ela também se sente pesando uma tonelada quando acorda pela manhã! - e eu sei que vou chegar lá, vou pedir o serviço, ela vai fazer aquele muxoxo de cansaço e vai me dizer assim "você tem muita pressa?" Eu, pressa? Nem sei o que responder. Andei pensando sobre essas coisas. A gente só procura o outro porque não tem o que ele tem. Falta-nos habilidade. Ou tempo. Ou paciência. Ou coragem. Então, eu procuro a costureira porque eu não sei fazer o que ela sabe. Eu não tenho máquina de costura, ela tem. Hoje me perguntaram porque que os arquitetos e os engenheiros trabalham juntos. Respondi prontamente: "porque os arquitetos tem preguiça ou não sabem calcular e os engenheiros não sabem ou tem preguiça de desenhar!" Ora, é só por isso mesmo! União de incapacidades! Me diga se os outros relacionamentos humanos não são assim? Já viu um casal igualzinho? Raríssimo. Sempre que um é arrumado, o outro é desengonçado. Um é pontual, o outro é atrasado. Um é racional, o outro viaja na maionese. Um é gastão e o outro pão-duro. Bem pode ser que o pão-duro só tenha se transformado em pão-duro porque o outro é gastão. Ou ainda, o gastão acomodou-se em ser assim gastão porque, no fundo, pensa que o pão-duro tem muito dinheiro guardado escondido. Infelizmente, o mesmo vale não só para humor mas, às vezes, para o caráter. Conheço um casal que me faz pensar porque estão juntos. Ele é um homem amável, corpulento, corado. Sempre alegre e gentil. Me parece sincero, espontâneo. Ela é magra e monótona. Arrumadinha, se acha elegante na sua secura. Sempre a mesma expressão no rosto pálido, sempre o mesmo sorriso amarelo. Cordialidade forçada, a dissimulação em pessoa. Como é que pode? Será que eles se enxergam como são e assim mesmo, se gostam? Ou estão enganados? Se for assim, resta saber quanto tempo vai demorar para descobrirem a verdade. O que acontecerá depois, caso eles percebam a verdade? Será que permanecerão juntos? E quando tiverem um filho, o que será? Nascerá um híbrido, como no seriado "V", meio humano, meio réptil-alienígena. Eu, deles, passo reto. Cumprimento - fazer o quê - com pena do rapaz. Estranha convivência. Essa junção no desequilíbrio é o jeito que Deus encontrou de fazer a gente entender que não sabe tudo e não pode tudo. É ser pela metade mas na ânsia de ser inteiro. Daí, passamos a vida procurando o que falta. Mas nem em sonhos escapo de sentir a falta de algo! Quando acordo, estou fragmentada. Pra piorar, vem um passarinho pousar na minha janela. Contra o azul do céu, a pequena figura xereta me fita, com olhar de piedade. Mas ele vai embora tão rápido como veio, livre. Olhando a janela e o céu azul, me dá uma bruta inveja do passarinho. Preciso de asas, coisa que nunca terei. Resta-me o silêncio, a solidão e, com um pouco de sorte, a escrita.